Atualizado em: julho 10, 2025 às 9:04 am
Por Guilherme Costa
Se a MTV tivesse a mesma força que tinha até 2010, certamente a grande onda do momento seria a cena do rock alternativo/ shoegaze que vem se construindo nos últimos anos. Capitaneado pelo Terraplana, além de outras bandas de destaque como o Adorável Clichê e a Putz, as camadas de introspecção — seja no campo lírico quanto nos arranjos — é o toque que tem atingido a nova geração de roqueiros do país. Basta comparecer nos shows das bandas mencionadas, para perceber que o público é (majoritariamente) formado por pessoas dos vinte e poucos anos.
Dentro dessa cena, há também outras bandas que são amplamente influenciadas pelo Midwest Emo — gênero popularizado por bandas do centro-oeste dos Estados Unidos — que adicionam esse tempero à grande referência aos ícones alternativos dos anos 90. Uma delas vem de Marília, interior de São Paulo. O Jonabug é formado por Marília Jonas, Dennis Felipe e Samuel Berardo e, após dois anos do lançamento do EP de estreia (“Big Ego, No Self Esteem”), se consolida como um dos grandes destaques da cena com o disco de estreia, “três tigres tristes” — lançado no dia 15 de junho.
Com uma base simples, mas com muito dinamismo, o trio do interior de SP conseguiu ampliar a sua paleta de referências do EP de estreia, consolidando a sua identidade. No disco de estreia, os riffs atmosféricos de guitarra é a chave que abre a porta para os sentimentos contidos em cada faixa, como é o caso de “Mommy Issues”, faixa que abre o álbum e aborda relacionamentos maternos (pode ser paternos, também) problemáticos.
Outro fator importante no debut do Jonabug são as músicas cantadas em português. Embora sejam apenas quatro faixas (“além da dor”, “fome de fugir”, “a sua voz é o motivo da minha insônia” e “nº 365”, respectivamente), elas encaixaram muito bem na atmosfera introvertida do álbum, com destaque para a penúltima citada. Ela é faixa mais direta do álbum, flertando com o Alt Rock e Hardcore, no qual Denis canta sobre a inquietação de uma relação ainda não superada (“O tempo passou e você ainda vive na minha mente/ Me perturbando/ Me deixou pra trás mas o seu olhar ainda fica/ Me visitando”).
A segunda metade do álbum é tão boa quanto a primeira, com destaque para “taste everybody’s tears” — faixa que não teria a mesma personalidade sem a linha de bateria de Samuel Beraldo — e o hit instantâneo “look at me”, um dos singles promocionais do álbum e que sintetiza muito bem a identidade do trio. Além da sessão rítmica, o vocal da Marília também é digno de nota, entregando várias facetas para as dez faixas do álbum; embora o estilo tende a ter vocais mais introvertidos, por vezes sufocantes, há momentos em que ela solta a sua doce voz: como é o caso do grito “pelo menos no papel meus erros podem ser apagados” e “no papel, no papel eu não sou real”, da amarga “at least on paper my mistakes can be erased”.
Entre tantas referências que o disco evoca, é importante destacar que “três tigres tristes” é o tipo de estreia que dá força para uma banda seguir em frente, por estabelecer uma boa base para os próximos trabalhos. As duas faixas que encerram o disco, inclusive, descolam da sonoridade noventista e reforça que o trio não está disposto a apenas emular uma sonoridade de uma década específica.