Atualizado em: julho 20, 2025 às 10:09 pm

Por Guilherme Costa

No dia 6 de junho o Katatonia lançou o seu décimo terceiro disco de inéditas “Nightmares as Extensions of the Waking State”, via Napalm Records. Para além da alegria dos seus fãs dos veteranos suecos, o álbum se notabilizou por ser o primeiro sem o guitarrista (e membro fundador, ao lado de Jonas Renske) Anders Nyström — que deixou o grupo no início deste ano.

Uma mudança seria natural, sem uma peça importante da engrenagem do Katatonia. Entretanto, Nyström já não estava atuando nas composições do grupo desde do aclamado “The Fall of Hearts”, fato que não afetou muito na sonoridade do novo disco da banda, sobretudo em relação aos dois discos antecessores (“City Burials” e “Sky Void of Stars”). “Nightmares as Extensions of the Waking State” é então a consolidação da nova fase da banda liderada por Renske.

E eu confesso que na minha primeira audição eu achei o disco mais do mesmo (como tem ocorrido com os últimos lançamentos do Evergrey): muito bem produzido, competente, bem trabalhado, mas nada de muito distinto. Pois eu mudei de ideia a partir da segunda audição. Lógico, o grupo segue na mesma linha que começou com a ruptura iniciada dos anos 2000, focando numa atmosfera melancólica e catatônica (ba dum tss), comandada — sobretudo — pela voz forte e paradoxalmente apática de Renske. O que muda (ou é realçado) em seu novo empreendimento, portanto, é a evolução que o Katatonia apresenta em relação aos seus dois últimos trabalhos.

“Nightmares as Extensions of the Waking State” é iniciada com um pesado riff de guitarra e uma forte bateria. Poucos segundos depois, o riff dá lugar ao minimalismo melódico característico dos suecos para criar uma atmosfera densa e soturna. Entre a dinâmica do peso versus melodia, “Thrice” é um híbrido entre as camadas de “City Burials” e as guitarras de “Sky Void of Stars”. A sequência vem com a forte “The Liquid Eye”; tendo uma superfície mais atmosférica, a sua profundidade é um mais Heavy Metal, com guitarras fortes e uma grande e dinâmica linha de bateria característica de Daniel Moilanen.

O disco ganha contornos épicos com “Wind of No Change”, faixa que tem coros fúnebres (oferecidos por Lawrence Mackrory e Nina Renkse) no refrão em que Renske canta: “(Estrela do dia)Aí vem a última nota/ (Sobre planícies de concreto) A coda podre/ Pois terminamos de esperar (Venham)/ Aí vem nosso parente mais velho/ Aparecendo onde jazemos em pecado/ (E respondemos aos seus nomes) E cantemos louvores, salve Satanás”. Segundo o vocalista do Katatonia, a faixa rememora o início do grupo, mas — curiosamente — também se conecta com a atmosfera de “The Fall Hearts”.

Feeling para criar singles

Mesmo que a sonoridade do Katatonia não seja de fácil digestão, devido o seu caráter altamente melancólico e introspectivo, os suecos criaram singles que conseguem agradar a gregos e troianos (nesse caso, fãs fervorosos e fãs casuais, com “My Twin”, “Lethean”, entre outros, sendo bons exemplos.

Em “Nightmares as Extensions of the Waking State”, “Lilac” e “Temporal” são duas amostras desse feeling que a banda tem. Elas são pesadas e melancolicamente densas o suficiente para capturar o ouvinte de primeira viagem quanto à pessoa que já conhece os antigos trabalhos. “Temporal”, aliás, é emendada na faixa “Departure Trails” que, por sua vez, oferece um contraponto ao refrão mais (suavemente) vociferado de Renke; ela é focada mais num clima mais sereno, sem a explosão do refrão de “Temporal” — podendo sintetizar o dualismo da nova-velha fase dos suecos.

O melhor da nova fase

Sendo o primeiro trabalho oficialmente sem Nyström e o terceiro na prática, é mais plausível pensar em “Nightmares as Extensions of the Waking State” como algo mais próximo dos últimos disco do Katatonia. Entre guitarras, passagens de Prog Metal e texturas sombrias, “The Light Wich I Bleed” encaminha com magnitude o encerramento do disco. Há espaço para a onírica “Efter Solen” (a faixa que eu mais gostei na minha primeira audição do álbum), uma música que flutua entre camadas eletrônicas e a sutileza do piano, que destoa e complementa a sonoridade do álbum. Mais uma vez a dualidade do Katatonia!

Lógico que não há nada de novo aqui, mas após doze discos e mais de trinta anos de existência creio que seja mais importante não soar como uma banda que faz as coisas no automático. E, novamente, o Katatonia (agora com Renske no total comando das suas ações) conseguiu  ser distinto dentro da sua própria atmosfera.