Atualizado em: julho 22, 2025 às 7:58 am
Por Guilherme Costa
Quando o músico e produtor Felipe Parra lançou o EP “Janela Laranja” no ano passado, eu comentei (você pode conferir aqui) que o paulistano havia encontrado o seu lugar dentro de um Hip Hop disposto a se entrelaçar com outros ritmos — alguns bem comuns ao estilo — como o Jazz, R&B e MPB. Com o lançamento do seu segundo disco de inéditas, “Conversas Imaginárias”, liberado no dia 16 de maio, Parra não fez nada de diferente para mudar a minha visão.
Diferentemente (novamente) do seu disco de estreia “Estrela”, lançado em 2022, onde a ordem era o suingue da Soul Music, em “Conversas Imaginárias” há um certo balanço quando o músico e produtor dedilha o seu violão, trazendo elemento do samba/MPB, mas os loopings lo-fi das batidas presente nas onze faixas do álbum não deixa negar que o foco é o Hip-Hop.
Com letras num tom confessional, o disco é a síntese de conversar consigo mesmo, de refletir e de colocar tudo para fora:
“Fazer música é minha autoterapia. Passo muito tempo produzindo e compondo sozinho, então é inevitável a gente falar consigo mesmo, ter pensamentos altos e às vezes até conversas imaginárias. O meu trabalho é reflexivo, emocional e traz um pouco desses devaneios solitários com canções envoltas nas batidas de boombap. Um disco de rap para Cassiano cantar” Parra declarou em comunicado à imprensa.
Nesse aspecto, o grande triunfo de Parra é a sua rima arrojada que — entre tantos temas — relaciona o caos da correria do dia-a-dia para lembrar de uma história em que ele observava uma planta nascendo na sarjeta da casa do músico e lembrou da sua vó que “benzia as pessoas e tirava o quebranto (mal olhado)”, como ele canta na faixa de abertura “Quebranto”:
“No silêncio eu me escuto melhor/ Só que nem sempre eu consigo lidar/ Se todo escolha é também renunciar/ Me escolher tem seu preço a pagar/ Todo dia a planta que nasceu na sarjeta de casa me encara/ Toda verde, fortona, grandona, vivendo vivona/ Mostrando que só o sol, a água e a fé/ É o que precisa pra ficar de pé/ Mas minha cabeça tá tão cheia, tipo 6 horas na Sé/ O povo te arrasta mesmo sem você querer/ O passo caminha sem que dê pra escolher”
Os pensamentos de Parra ganharam ajuda de outros artistas para se materializar
Ao todo, “Conversas Imaginárias” conta com seis participações especiais: Edyelle Brandão, Uterço, Weslei Rodrigo, Rodrigo Tuchê, Diabelsmusic e Diamusiq, sendo que a Edyelle participou em duas faixas, “Não Me Importo Mais” — faixa que aborda o término de um relacionamento na perspectiva masculina e feminina — e “Escorpião”, que conta com uma grande linha de baixo (gravada por Weslei Rodrigo) que reforçam a base das várias camadas de beats presentes nela; nas duas músicas também percebemos a versatilidade do vocal da Edyelle, com destaque para o canto quase gospel no refrão de “Escorpião”.
O Jazz Lo-Fi (se a definição existe) é o guia de duas músicas do álbum. A primeira é em “Racionalmente”, faixa que conta com a participação do rapper Uterço e é introduzida com Parra dizendo que “não tem medo das vozes da sua cabeça, eu só tenho medo que ela parem de falar comigo”, cujo trompete de Pedro Vituri arrancaria o sorriso de qualquer fã do Miles Davis; já em “Arritmia”, o Jazz divide o protagonismo com o beat Lo-Fi (que me lembrou algumas coisas do último EP do Andaluz, “Linear”).
“Otimista”, uma das prévias do álbum, é outra música de destaque no álbum, em que Parra apresenta um olhar que passeia entre a batalha do otimismo e as paisagens cinzas de um mundo cruel.
Seguindo os passos da variedade de referência que contém na parte rítmica, Felipe Parra também fala (com e) sobre o outro, como é o caso de “Sorriso Dela”, cujo refrão é direto e claro: “eu faço o que for só pelo sorriso dela”. “Conversas Imaginárias”, portanto, não é apenas sobre Felipe Parra, uma vez que é sobre as suas relações com o outro e com o mundo!