Atualizado em: julho 24, 2025 às 9:14 am
Por Guilherme Costa
Em 2020, durante a pandemia, eu acessei uma playlist no Spotify chamada “Shoegaze brasileiro” (ou algo do tipo) para ouvir enquanto trabalhava no saudoso home office. Entre algumas faixas, “Treasure”, do Cyanish, foi a que eu mais gostei, me fazendo ir atrás de outras músicas do grupo.
O EP “Lighthouse” — no qual é encerrado por “Treasure” — foi lançado em 2019 e conta com a alma do Alt Rock dos anos noventa; o grupo, formado por Felipe De Mari Scalone, Vitor Bruno e Paulo Doi, lançou o disco de estreia, “Amber”, em 2022 (que esteve entre Os Melhores do Ano do Um Outro Lado da Música), e depois entrou num hiato. Mas não se engane, o projeto não foi esquecido “todo mundo tá bem ocupado, mas seria legal nos reunirmos eventualmente. Também tenho várias músicas novas”, comentou o vocalista da banda Felipe De Mari.
Felipe De Mari Scalone além de músico também é produtor e cada vez mais tem focado no seu trabalho em estúdio à frente do seu Junkmahal Studio. Tendo produzido artistas como Vitor Bruno, 43duo, Luvibites, Catiça, entre outros, o paranaense natural de Londrina conta que desde criança gravava de forma despretensiosa material em fita cacete e, posteriormente, no computador, mesmo que à época ele preferisse tocar e compor. O tempo passou e seu amor mudou de direção “apenas quando realmente passei a barreira de produzir seriamente que descobri a fundo a produção musical e me apaixonei”.
Cyanish, Junkmahal Studio, a sua visão como produtor e a sua recente viagem para o Estados Unidos são o foco do Um Outro Lado Entrevista com Felipe De Mari Scalone. Confira:

Em Hollywood, por Thaís Torres Di Luca (@analog.thais)
Eu já comentei com você que “Act Love” é uma música muito importante para mim. Você pode comentar sobre a criação dela e do seu videoclipe.
Poxa, primeiramente obrigado por acompanhar a banda! Acho muito legal saber que as músicas são especiais pra outras pessoas também.
Eu acredito que tenha feito esse som lá por 2017. A letra diz sobre sentimentos de inadequação e falta de conexão com o que a maioria das pessoas chama de normal. O clipe foi a junção desse conceito com uma ideia que o Paulo Doi (batera) já tinha há algum tempo – uma câmera “andando por imagens”, passando de uma para outra. Fizemos isso tudo DIY com canos de pvc, uma madeira para suporte do tripé da câmera e rodinhas de skate.
“Amber” — o disco de estreia da sua banda — inicia com uma introdução de cítara indiana. De onde surgiu essa ideia e você utilizou o instrumento ou foi fruto de pedais, efeitos e etc?
Por volta de 2018, eu estava experimentando com efeitos e procurando pedais que poderiam me trazer mais criatividade. Minha empresa favorita de pedais é a Electro-Harmonix e, num dia fuçando coisa deles, achei o Ravish Sitar e pirei. Eu amo bandas que usam elementos mais orientais – sejam efeitos, instrumentos ou até mesmo as próprias escalas – como The Brian Jonestown Massacre, Black Angels e também algumas coisas dos Beatles, como Revolver, meu disco favorito deles. Assim que o pedal chegou, comecei a viajar aqui e saíram coisas como “Silence” e a intro de “Amber”.
Após o lançamento de “Amber”, o Cyanish fez poucos shows e praticamente teve os trabalhos interrompidos. Isso foi resultado do efeito da pandemia ou a banda entrou naquela situação de ter conflito de agenda com outros projetos? E, emendando, qual é o atual status do Cyanish?
No final de 2019, o Paulo Doi saiu e ficamos uns meses com o Gabriel Pelegrino, que na época tocava com o Valeries, outra banda de Londrina. Fizemos apenas um show naquele ano: sexta-feira, final de março de 2020. Dois dias depois, na segunda, estava tudo fechado devido ao Covid. Esse foi um momento crucial que, além de distanciar os integrantes, mudou muito a vida pessoal de cada um. O Gabriel acabou saindo também e, no meu tempo de isolamento e mixando “Amber” (que havíamos gravado em fevereiro), percebi que gostava mais da parte da produção, dos “bastidores”, do que de tocar em banda de fato.
Abri o Junkmahal (estúdio na garagem e sótão de casa que, até então, usávamos para ensaios com o Cyanish) a outros artistas e bandas no final da pandemia, começo de 2021, e comecei a trabalhar com artistas locais (como Luvbites e o próprio projeto solo do baixista do Cyanish, Vitor Bruno), de forma que não tive mais tempo para pensar na banda.
Em 2022, recebemos um convite para tocar num show com De Um Filho, De Um Cego e Wry. Adoramos as duas bandas e topamos na hora! Não discutimos mais sobre uma possível volta depois disso, todo mundo tá bem ocupado, mas seria legal nos reunirmos eventualmente. Também tenho várias músicas novas (para pelo menos mais um álbum) e pretendo gravar assim que tiver tempo, independente de shows.
A ideia de se tornar produtor ocorreu após ter uma banda ou era algo que sempre esteve no seu radar?
Eu sempre fiz gravações. Sempre. Desde pequeno até a adolescência em fitas cassete. Depois comecei a usar computador. Nunca me interessei em me aprofundar, priorizava tocar e compor músicas. Apenas quando realmente passei a barreira de produzir seriamente que descobri a fundo a produção musical e me apaixonei.
Há uns dez anos eu estava lendo a biografia do Blink 182, e foi comentado sobre o estilo do produtor Jerry Finn. Qual é o seu tipo de assinatura, enquanto produtor, no que diz respeito a função (de moldar uma sonoridade a direcionar um artista)?
Eu não sei dizer se é assinatura, mas acho que uma tendência que tenho é buscar texturas que representem e transmitam sentimentos. Eu sempre tenho muitas conversas com os artistas que produzo sobre os conceitos, origens das músicas, letras etc. Geralmente, a composição, os instrumentos e a letra já estão direcionando o ouvinte a um mesmo caminho (e, caso algum não esteja, trabalhamos nisso). Criamos arranjos e alterações de estrutura, se necessárias, para também puxar a atenção de quem escuta para aquele mesmo lugar. Ou seja, todos elementos andando juntos para a mesma direção, de forma que o feeling seja reproduzido e, a conversa entre artista e espectador, estabelecida. Isso tudo durante a pré-produção. Na gravação e na pós-produção (mix, master) busco as texturas que julgo mais adequadas para reforçar o sentimento que buscamos.
No caso de “Bitter Life”, do Vitor Bruno, por exemplo. A linha de piano já havia sido criada e já passava o clima de melancolia que queríamos. Na hora de gravar essa linha, tentei aguçar ainda mais uma ideia de solitude e captei o piano com um microfone debaixo d’água (dentro de um galão de bebedouro, com uma camisinha no microfone).
Você passou um tempo nos Estados Unidos estudando no estúdio do engenheiro de som Chris Sorem. Como essa experiência ajudou no seu olhar de produtor, sobretudo em novas perspectivas de produção e engenharia de som?
Foi ótimo estar com o Chris, aprendi demais como seu assistente. Desde como lidar com artistas, até técnicas e modos de pensar na hora de produzir. Foi bem legal sacar a organização dele para dividir o cérebro em momentos que necessita ser detalhista e técnico, e outros para abrir a criatividade e não pensar muito, apenas reagir, mixar, tentar, pintar.
Você ainda reside em Londrina? Eu estava pensando sobre os desafios de ser um produtor de música underground no interior (ou até mesmo longe do eixo Rio-SP). Do ponto de vista do business, qual é o fator mais importante para superar barreiras geográficas (distância) que existem no país e onde você percebe que o seu trabalho é necessário para artistas que estão longe das capitais?
Estou em Londrina no momento, sim. Existem conversas de projetos com produtores de fora, mas ainda em Standby, então estou por aqui enquanto isso produzindo algumas bandas e também pensando sobre próximos passos. Eu acho extremamente difícil e quase inviável produzir música no interior. Meu estúdio fica na casa dos meus pais. Se tivesse que alugar e tratar um estabelecimento para produzir, não teria como pagar as contas trabalhando apenas com isso.
Sobre business e superar barreiras, acredito que a única forma é literalmente passar essas barreiras físicas, viajar para “lugares chave”. Por mais que exista internet etc, há milhares de pessoas fazendo a mesma coisa. A diferença é você investir para estar no mesmo espaço de quem tá na sua frente em relação à carreira, presenciar criatividade com quem exercita isso diariamente. Além de que é pessoalmente que temos oportunidade de tomar um café ou uma cerveja e trocar ideias – acho que nenhuma interação digital vai substituir isso. Eu acredito nisso, pelo menos. Não sei se é necessário ou serve pra todo mundo, mas acho que é o que tem funcionado pra mim.
Atualmente você se enxerga como um produtor ou ainda um músico/produtor? Ou são duas coisas que não precisam necessariamente ser separadas?
Me vejo mais como produtor, pois levo a sério o suficiente para estudar todos os dias e chamar de profissão. Enquanto músico, sempre fiquei um pouco frustrado porque não conseguia focar para treinar e acabei sendo mediano em cada instrumento. Pulava da guitarra pra bateria, enchia o saco e ia pro baixo; depois já pegava o violão e ir cantar outra coisa. Isso fez com que eu não tocasse tão bem guitarra quanto um guitarrista, o mesmo em relação à bateria, baixo etc. Porém, quando comecei a produzir, saber um pouco de cada instrumento acabou me ajudando a entender um pouco do modo de pensar e tocar de diferentes músicos. Então acho que ser um músico mediano em várias coisas acabou me ajudando a ser um produtor melhor.
Mas adoro tocar e compor, acho que ainda sou um pouco músico também.
O Um Outro Lado da Música tem um quadro que se chama “Um Outro Lado Indica”. E eu quero saber de você, qual artista/ banda você indica para mim e para quem está lendo a entrevista!
R: Tem mina muito foda que adoro, Grace Ives. Não entendo como ela não é gigante e conhecida por todo mundo. O trampo dela é incrível. Indico as músicas “Lazy Day” e “Mansion”. E, obviamente, os artistas e bandas que produzi, como Vitor Bruno, Catiça, 43duo, DFDC. Esses e outros estão na playlist do estúdio, vou deixar o link abaixo.
Obrigado pelo convite, Gui. Um abraço!