Atualizado em: outubro 23, 2025 às 9:09 am
Por Guilherme Costa
Neste ano de 2025, o Blood Red Shoes está concluindo a turnê que celebra os vinte anos de existência da dupla Indie britânica (que infelizmente nem sonhou em passar pelo Brasil). Em paralelo aos shows comemorativos, a vocalista e guitarrista Laura-Mary Carter aproveitou para lançar o seu disco de estreia, “Bye Bye Jackie” — liberado no dia 26 de setembro, via Jazz Life.
O álbum saiu quatro anos após o lançamento do (ótimo) EP “Town Called Nothing”, que já mostrou a musicista se afastando do Punk/Indie Rock da sua banda, com texturas Blues e vintage. E “vintage” é uma boa definição para “Bye Bye Jackie”, cuja sonoridade passa pela música pop da década de 50/60 — para quem acompanha as redes sociais da Mary Carter, sabe que ela é uma imensa fã do Elvis Presley — de grupos como o The Ronettes (além de coisas mais atuais, como o Cults em seus dois recentes álbuns de estúdio.
“Este álbum é direto do meu coração. De muitas maneiras, parece uma espécie de funeral, uma forma de dizer adeus às velhas maneiras. É um registro sobre os altos e baixos do amor na minha vida, e o caminho estranho e emaranhado que ele tomou. Acima de tudo, eu queria que fosse honesto algo que realmente soasse como eu. E estou muito orgulhoso do que fizemos.”
Embora toda a roupagem vintage dê o tom no disco, ele inicia com batidas eletrônicas na faixa “Sometimes I Fail”, que logo encontra o seu caminho em direção à uma balada agridoce de artistas da década de 60/70, enquanto ela canta “Você era meu bebê, eu era seu anjo/ Mas algo mudou assim/ E você não foi capaz/ Ondas de confusão, eu tentei não gostar de você/ E agora, enquanto perdemos o contato/ Isso significou tanto assim?”.
Após a faixa “Four Letter Words” — um dos singles promocionais do discos e que segue na mesma linha da faixa que abre o álbum —, “Keep Sweet” soa mais como uma banda Indie revivendo uma época distante, com o baixo e bateria agindo de forma taciturna, sendo sobrepostas por camadas de órgão e sintetizadores. Nessa música, aliás, podemos (entre outros exemplos, é verdade) aproveitar uma versão diferente da voz de Mary Carter: mais melancólica, intimista e introvertida.
Com um EP e um disco solo, Mary Carter já conseguiu se desprender da sonoridade do Blood Red Shoes. Não é necessário pensar no BRS para tentar definir a música “Tell Me You’re Story”, a faixa com mais presença de guitarras do álbum, sendo que é possível encontrar referências no “Town Called Nothing”.
E, se o EP mostrou uma nova faceta da musicista, no disco de estreia ela dobrou a aposta. “Bye Bye Jackie” é como olhar para uma pessoa e perceber que você só conhece uma parte dela; neste caso, podemos apreciar esse lado “nunca antes mostrado” em faixas como “I’ll Laugh About It (In Good Time)” — música com tons gospel, com belos arranjos de cordas e que sintetiza a roupagem do álbum — e o single “Elvis Window”, onde Laura-Mary Carter canta sobre nostalgia, sonho americano e aproveita para homenagear o seu ídolo.
Para encerrar, eu destaco a faixa “Cornets”, com a sua simplicidade e profundidade sonora. É necessário se dedicar a faixa para apreciar cada detalhe, tons e texturas presentes nela (além de outra amostra da bela voz de Mary Carter); a faixa pode sintetizar toda a confiança de uma musicista que está na estrada há muito tempo e que nunca ficou em modo automático com o seu parceiro de banda (Steven Ansell). “Bye Bye Jackie”, portanto, é apenas a extensão da inquietação que é a carreira artística de Laura-Mary Carter.