Atualizado em: dezembro 9, 2025 às 11:10 am
Por Guilherme Costa
No final de março deste ano, saiu o terceiro disco de inéditas do trio goiano Overfuzz. Sugestivamente intitulado “Três”, o álbum encarnou alguns aspectos da numerologia em seu novo registro: o terceiro disco de um trio, lançado no terceiro mês do ano. Mas o mais importante e notável, é o fato de “Três” ser o primeiro álbum do grupo com cem porcento das letras em português.
“Queria cantar na nossa língua e passar uma mensagem clara pro nosso público. Também queria que as pessoas conseguissem cantar junto as músicas nos shows”. Comentou em comunicado à imprensa o baterista Victor César. “O grande desafio (e que também é a parte mais legal) está em achar sonoridades e melodias que soem bem com as novas propostas, mas sem perder a potência e a agressividade que sempre nos caracterizaram.” Completou Brunno Veiga.
A missão incumbida à Brunno Veiga (guitarrista e vocalista), Mario Nacife (baixista e vocalista) e Victor César (baterista e vocalista) foi cumprida com grande êxito. Parte da qualidade do disco, entretanto, não se deve apenas as composições em nossa língua; o trio adotou uma sonoridade mais rock and roll e menos Stoner (que os aproximavam de grupos como o Black Drawing Chalks), presente nos dois discos antecessores. Ou seja, o peso não diminuiu, apenas mudou de forma — como o riffi inicial de “Olho Que Tudo Vê” e o seu próprio desenvolvimento mostra.
Embora “Três” seja repleto de mudanças, interfindo até na transição das faixas — há espaço para respirar, diferentemente dos outros álbuns —, ele é iniciado tendo ecos do passado na faixa “Montanha-Russa”. Ela funciona como ligação entre o passado e o presente, entregando peso, velocidade e dinamismo, além de mostrar como Brunno, Mario e Victor estão seguros da nova fase do Overfuzz. Essa segurança é realçada em “Telas” — faixa que critica o uso excessivo de telas (celulares e suas funções) —, cujo apelo pop está bastante presente em sua estrutura (com direito a intervenções de teclados).
Como mencionado acima, um dos fatores que motivou as composições em português foi transmitir uma mensagem clara e instantânea. Dentre as oito faixas presentes no álbum, “Sonho Americano” é a que melhor sintetiza o intuito de uma crítica direta e reta! Nela, Mario Nacife assume os vocais para gritar contra a ideia de que o país norte-americano é uma maravilha hollywoodiana — ela também ganhou contornos mais críticos, após a taxação do governo Trump em julho deste ano.
“Deixe soar o seu complexo vira-lata, você não se encaixa/ ele queria tanto ser americano/ sacar todo o seu dinheiro no banco / montar uma banda que só canta em inglês/ fazer turnê tocando só pra burguês/ nós precisamos tanto evoluir/ mas acredito que não é por aí/ num filme soa tão bonito”
“Rock Americano” também mostra como Overfuzz não deixou de lado os riffs poderosos e uma base forte. Outra amostra dessa sinergia entre letra e ritmo é a faixa “Ilusão”, que conta com um groove de bateria e um grande refrão — em outra grande execução de Brunno —, sem tirar o protagonismo do peso dos riffs de guitarras e da base do baixo.
Sem medo de mudanças, o ano que marca o décimo quinto aniversário do grupo é o início de uma nova fase. Ele não chega a ser uma grande ruptura, já que (novamente) houve apenas uma mudança na forma de como o trio imprimiu peso em suas músicas. A banda estava tão confortável, que não teve receio de encaixar faixas como “Overdose” e “Hei de Correr” — que tem um quê de Tianastácia — no disco. E, como o trio canta em “O Rock Morreu”, “o rock está onde deve estar”, bem como o Overfuzz.
O Overfuzz está entre os Melhores do Ano do Um Outro Lado da Música!