Atualizado em: dezembro 18, 2025 às 12:51 pm

Por Guilherme Costa

Eu estava mexendo no celular, curtindo a música “The Seed” (Roots), e percebi que haviam três pessoas — como uma espécie de meia no rosto — estáticas no palco. Pouco tempo depois, o show começou e os três começaram a esbanjar feeling, no geral, direcionado para o Post-Punk. A verdade é que eu, e quem estava olhando a passagem de som no palco do Goela bar, na última sexta-feira (12), já sabia quem eram os três integrantes do grupo chamado Polly Noise and The Cracks.

“É difícil manter a identidade 100% [por causa das] redes sociais e a gente precisa mostrar às vezes a cara. Mesmo assim, eu ainda mantenho um pouco o ‘sigilo'”, declarou a vocalista, guitarrista e idealizadora do projeto, Fernanda Gamarano. Mas isso não tira o charme do mistério que a Fernanda e os seus companheiros, Priscilla Fernandes (baixo) e Ian Veiga (bateria), trazem ao som do jovem grupo, que está prestes a lançar o seu disco de estreia.

Após o ótimo show (com um certo clima distópico), que contou com a participação de Ada Bellatrix (Flor Et), eu conversei um pouco com a simpática, sorridente e “gesticuladora” Fernanda, que me respondeu sobre algumas curiosidades que me ocorreram quando eu conheci o grupo. Como, por exemplo, se era confortável o figurino escolhido para as apresentações, no que ela respondeu não é super confortável“. Contudo, ela frisou que o mais importante é a mensagem por trás da escolha da sua estética, cujas referências passam por Lady Gaga e Daft Punk:

A ideia, mesmo, é que as pessoas prestem mais atenção no espetáculo, não só na nossa aparência, no nosso rosto. A gente que é mulher, a gente sofre muito esse assédio de sempre ser bonita, toda hora. Ou tem que estar disposta, tem que ser nova, não pode ser velha. Refletiu.

Embora o trio tenha tocado bastante neste ano e lançado um single em 24 e em 25, ele existe desde 2018. A propósito, a Fernanda e o Ian também integram o grupo Der Baum, que deu uma pausa nas suas atividades; e foi nessa “janela” que a líder da Polly decidiu retomar e focar na banda. Para quem já conhece o Polly Noise and The Cracks, a diferença entre os lançamentos recentes e os mais antigos é facilmente explicada “é porque no começo eu estava mais focada no dream pop mesmo”.

Embora, também, o projeto se centralize na figura da Fernanda, o esforço coletivo se faz presente tanto na concepção estética quanto sonora do trio: “nós três juntos, tem muita ideia de arte, assim, artisticamente”.

Confira a entrevista completa:

Estou aqui com a Fernanda, do Polly Noise & The Cracks. Eu vou começar pelo começo! Pode falar como que o trio começou e também sobre a ideia da formação da banda, e da sua estética?

Bom, a Polly é o meu projeto solo. Eu fundei o projeto em 2018, mas eu comecei a fazer as coisas aconteceriam a rodar mesmo o ano passado, em 2024.

Então, a gente é uma banda meio nova, meio velha, não sei dizer, porque a gente já está… eu já estou com esse projeto faz muito tempo, porque eu sou de uma outra banda [Der Baum] que já está no corre há 10 anos. Realmente, ninguém sabia que era eu, no começo. Por isso que tem o rosto anulado, assim. Mas é difícil manter a identidade 100% [por causa das] redes sociais e a gente precisa mostrar às vezes a cara. Mesmo assim, eu ainda mantenho um pouco o “sigilo”.

Eu comecei primeiro gravando as músicas com a Dani Simões, do The Monic, ela me ajudou a fazer as baterias das primeiras músicas. E aí, depois, quando passou a pandemia e tal a minha outra banda entrou em pausa. Pensei: “não, mas eu preciso continuar fazendo música”. Aí, eu chamei o Ian, que é o baterista, que é o crack de número 1, e chamei a Priscila, que é a crack de número 2, que é a baixista, né? E aí, tem essa ideia do visual ser o rosto anulado.

A ideia, mesmo, é que as pessoas prestem mais atenção no espetáculo, não só na nossa aparência, no nosso rosto. A gente que é mulher, a gente sofre muito esse assédio de sempre ser bonita, toda hora. Ou tem que estar disposta, tem que ser nova, não pode ser velha. Enfim, várias coisas que o mundo e a sociedade impõe pra mulher. Então, eu quis colocar isso! Me deixar um pouco mais liberta na parte musical. E queira ou não, também “linka” outras coisas, né? Eu me inspirei muito na Lady Gaga, no Daft Punk, nesse conceito de meio ser esquisito. Então, a gente é meio tipo uns bonecos bizarros, que ficam travando, ficam caindo. Meio que partiu disso, assim.

E quando a gente pensa numa estética, temos os exemplos do Daft Punk, do Slipknot… E aí, eu quero saber o quanto você pensou na execução dessa ideia, porque há um caminho bem distante entre a ideia e a sua execução. Então, você chegou a pensar e testar a forma de aplicar esse conceito visual, no sentido de ver o quão confortável ficaria para vocês e entregar um bom show também para o público?

Sim, eu pensei muito nisso, porque antes a gente usava uma máscara que era uma meia calça. E a meia calça é diferente da máscara de renda, que é um pouco mais furadinha, que dá para respirar mais, enxergar melhor. A meia calça era mais difícil de enxergar. Assim, ainda não é super confortável, mas eu acho que o artista, ele tem, às vezes, aquele negócio que no momento do show, ele põe aquela roupa, que não é tão confortável assim, mas ela faz parte do espetáculo. Então, eu meio que tenho que fazer “um sacrifício” pra fazer rolar a arte.

Quando eu falei que eles [da banda] teriam que usar também, eles toparam e acharam a ideia muito legal e tal. É lógico que quando está muito calor, a gente tem os negócios de “ai, tá muito quente” e a gente [ainda] sua peruca. São os meios que a gente conseguiu deixar mais confortável para fazer o show. Por enquanto tá tudo ok. Não está extremo. Mas, sim, eu sempre pensei muito nisso, pra ninguém ficar também sofrendo!

E você também é fotógrafa. Pensando na estética da banda, e enquanto fotógrafa, estar do outro lado do palco ajudou a imaginar como funcionaria o visual da banda em cima do palco?

Sim, sim, ajudou bastante. Inclusive, também, a baixista é designer, é modelo, e também é do audiovisual, então ela ajudou a fazer o conceito mais atual da Polly Noise. Então, nós três juntos, tem muita ideia de arte, assim, artisticamente, né? A gente vive muito nesse meio das fotos, cinema.

Eu também faço cinema, então vem muito disso! Com certeza ajudou bastante para chegar a essa ideia. Tanto que no show, que a gente vai fazer lançamento lá no Sesc, a gente já tá pensando num palco diferente, colocar uns manequins… Vai ser uma coisa bem diferente, bem bizarra.

Umas projeções também?

Sim, projeções também!

Já entrando no assunto do disco, o single mais recente foi lançado nesse ano, que é “Kiss You”. Ele tem uma vibe um pouco diferente dos outros singles, um lance meio Molchat Doma — aquela coisa meio soviética. Você pode comentar um pouco sobre esse single e sobre o clipe dele.

Bom, “Kiss You” vai fazer parte do novo álbum. A gente tocou, acho que quatro músicas do novo álbum nesse show. E ele faz essa vibe mais post-punk, shoegaze. Eu misturo bastante dream pop com shoegaze e eu [também] sou muito do post-punk, não tem jeito. Tanto que eu me inspirei bastante também no The Cure e com certeza também no Molchat Doma, que eu gosto bastante. Eu sou da parte gótica. Adoro a estética gótica. Sou gótica. Então, eu trago muito isso pro som. Inclusive, essa aí [“Kiss You”] foi o que eu quis trazer mesmo, as guitarrinhas mais rifadas e tal.

E essa será a tônica para o novo disco? Essa coisa mais post-punk, um pouco mais arrojada ou terá um pouco de tudo: rock gótico, new wave etc.?

Ah, vai ter umas músicas mais dançantes, meio eletrônica, puxando mais pro dream pop mesmo, com uma pegada bem inspirada no Daft Punk. E, sim, vai ter também umas mais puxadas para o post-punk, shoegaze, [com] bastante reverb, guitarras altas. Com certeza vai vir mais pra essa pegada.

A gente estava conversando em off, sobre você ter começado a banda lá em 2018, ter dado uma pausa e retornando com o projeto. Esses singles lançados entre 2018 e 2019, é um pouquinho diferente — acho que é um pouco mais dream pop, mais rock alternativo. Como você explica essa metamorfose para os dois recentes singles que são muito mais post-punk?

É porque no começo eu estava mais focada no dream pop mesmo. Mas depois começou a atrelar a gente ao shoegaze. Na verdade, quando eu comecei a fazer as músicas da Polly Noise, eu nem pensava num estilo. Eu fui fazendo, e aí a galera foi colocando a gente na caixinha. Eu falei, “ah, então quer saber? Então vamos fazer essa caixinha”. Eu acho que tem mais um amadurecimento, porque quando eu comecei, eu fiz sozinha. Nesse ano, eu pensei melhor: “não, vou fazer umas músicas mais pensadas, mais estruturadas, ter uma levada mais focada em algum estilo assim”, mas também sem focar muito num único estilo, sem perder essa identidade que a Polly é.

Então, não senti muito drasticamente a mudança, porque, às vezes, quando eu acho que a música ficou boa e ela tá combinando com a Polly, eu falo, “ok”, vou lá e faço. É isso!

Vocês têm tocado bastante nesse ano de 2025. E você comentou que tocou algumas músicas [no show em que estávamos] que estarão no disco de estreia que será lançado no ano que vem. Dessas músicas vocês tocaram nesses shows, houve alguma mudança ou algum ajuste por causa da performance ao vivo? No sentido de você estar tocando a música e ver que ela soa melhor de uma outra forma, e aí refazer ou remodelar ela para gravação de estúdio?

Bom, a gente usa backing tracks, né, os synths que não tem no palco, a gente acaba usando no click, que a gente ouve aqui no ouvido. Então tem coisas que a gente adapta mesmo pro ao vivo, que a gente acha melhor, e tem coisas que a gente faz parecido com o que vai está no álbum. Tem umas músicas que é igualzinho ao álbum mesmo e aí a gente ensaia e sai igual — quase o álbum. Ou sai até melhor, né? Eu falo que o ao vivo sempre tem que ser melhor que o álbum. Mas ela não tem uma distância tão drástica assim.

Só a instrumental, porque a instrumental é orgânica, então eu sempre mudo o solo da guitarra em todos os shows, tento sair o mais próximo do padrão possível.

Mas é mais do estúdio para o ao vivo e não do ao vivo pro estúdio, certo?

Isso, exatamente.

2025 foi a agenda mais cheia da banda?

Sim, foi a mais cheia, porque eu tive mais tempo pra me dedicar a Polly Noise e como eu tenho uma outra banda de mais de 10 anos, eu acabei usando os contatos que eu já usei pra outra banda pra poder fazer girar. Então eu vendo que tá sendo bem legal, a gente tá fazendo shows bem legais, e é muito massa, né? Começar a tocar e já tocar no SESC. Quem não gosta do SESC? O SESC é muito bom!

Então eu fico muito feliz com o retorno que tá dando. Eu sei que é uma caminhada muito longa [de uma] banda independente, autoral, mas eu gosto. Então, eu sinto que esse ano foi muito massa, mas eu acho que o ano que vem vai ser melhor!

E você tem percebido, durante esses shows, uma construção de uma base de fãs, de um público que tá se repetindo a cada show — e não só vendo caras novas?

Sim, tá construindo aos pouquinhos. A gente ainda tem poucos fãs, porque a gente é muito novo. Mas cada show parece que a gente consegue conquistar alguém e essa pessoa aparece no próximo show. Hoje mesmo, tem um colega que a gente conheceu num show, ele virou fã, ele vai quase em todos. Então, ter mais disso seria legal!

O Um Outro Lado da Música tem um quadro que se chama “Um Outro Lado Indica”, agora sob o comando do Arthur. E eu quero saber de você, qual artista/ banda você indica para mim e para quem está lendo a entrevista!

Nacional, eu vou indicar a Flor Et. A Ada participou com a gente hoje no show, tocando saxofone, é uma banda que também está começando a ganhar bastante notoriedade; e eles são muito bons, muito bons mesmo, são totalmente diferenciados e vale a pena conhecer!

Eu ouvindo muito o Night Tapes e Cannons, que é banda bem de Dream Pop, e que está me influenciando bastante nesse novo álbum.

Então é isso, muito obrigado pela entrevista e boa sorte nos próximos shows!

Muito obrigada, eu que agradeço o espaço, espero vê-lo em outro show. Muito obrigada mesmo!