Atualizado em: dezembro 22, 2025 às 8:39 am
Por Guilherme Costa
Quando olhamos para uma banda mais pop (mesmo dentro do rock), creio que subestimamos as capacidades dos seus integrantes por deduzir, de forma errônea, que os músicos só conseguem existir dentro daquele contexto em que eles estão inseridos — e por não fazer um som ultra, mega elaborado. E é aí que entra o charme da arte. Não é preciso criar algo elaborado para ser genial (vide os diversos exemplos no Punk e o Post-Punk).
E num desses projetos solos que me surpreendeu este ano, está o guitarrista da banda britânica Maximo Park (cujo mais recente álbum, “Stream Of Life”, esteve nos Melhores do Ano de 2024), Duncan Lloyd. Principal compositor do grupo oriundo de Newcastle, Lloyd também é pintor, fotógrafo e cantor. Tendo um carreira solo sólida, o seu sexto disco de inéditas “Unwound”, saiu seis anos após o seu antecessor, sendo lançado no dia 3 de abril, via Reveal Records (aliás, a capa do álbum foi criada por ele).
Diferentemente do Indie Rock que moldou o início dos anos 2000, o qual Lloyd e a sua banda tiveram uma boa contribuição, o novo álbum do multiartista pende mais para as texturas cruas e secas do Post-Punk, a fim de corroborar com os temas pessoais nada agradáveis presentes no álbum:
Eu precisava de uma pausa de tudo relacionado ao mundo online. Afastar-me disso e estar mais perto da natureza reacende a imaginação; é meio óbvio, mas é fácil esquecer o quão importante isso é. Contou o guitarrista em seu perfil no Bandcamp, que continuou. É um álbum sobre experiência; ao longo de toda a obra, percebe-se que a dinâmica, a velocidade e o espaço foram cuidadosamente considerados (…)
O disco abre com “Gothic Pill”, cuja longa introdução longa engana ao sugerir que a faixa poderia ser instrumental. Mas logo Duncan começa a cantar, de forma sutil, introvertida, como quando estamos prestes a abrir o coração para alguém e a voz sai meio fraca. Nesta faixa, aliás, ele pende mais para as atmosferas do rock alternativo e mostra que o músico não estava pensando apenas no Post-punk para usar de pano de fundo para liberar as suas emoções.
É a partir da segunda faixa que a roupagem da década de 80 (o supracitado Post-Punk) começa a aparecer. Primeiro, com “I’m on It”, apoiada num sintetizador que preenche os espaços que existem em outras faixas ela tem uma roupagem quase onírica; ao contrário da sorrateira “One Step Closer to the Dam”, cuja linha de baixo guia o olhar observador de Duncan, que canta “todos os nomes das montanhas mudaram/ puxe uma cadeira para a janela/ observe a chuva”, lembrando em muito o início do Cure e do Siouxsie and the Banshees.
O minimalismo está em todas as partes de “Unwound”, independentemente do gênero que ele se baseou para a construção da sua faixa. Como ele mesmo citou sobre a atmosfera do disco, aqui há espaços para diminuir a passada e respirar, mas sempre com melodias cativantes e brandas. Em “Swim”, faixa de pouco mais de sete minutos, ele alterna entre guitarras simples, sintetizadores, e uma percussão quase que em looping parar criar tal atmosfera. “Bright Field” — uma das minhas favoritas do álbum — encerra o bloco mais Post-Punk do álbum, embora ela se aproxima mais de coisas do Elliott Smith, numa olhar incerto sobre o outro “pensamento kamikaze/ mais do que abandonado à própria sorte/ confundindo as linhas entre problema e desejo/ é sempre melhor na sua cabeça”.
A segunda parte inicia mais barulhenta, com o volume dos instrumentos elevados (ao contrário da voz de Duncan, que segue tímida), em “Radio Silent” e na distorcida “Laugh so Loud”, cuja atmosfera noventista volta a ter protagonismo no álbum. A intenção era a de criar vários ambientes. Então, após a tempestades das faixas citadas, vem a calmaria com a semiacústica “Together so to Speak”, que traz uma gravação mais rudimentar, funcionando como uma demo; essa ideia também é utilizada em “A World Away Now”.
“Unwound” é outra amostra da qualidade dos músicos do Maximo Park e da afinidade que eu tenho com os seus trabalhos — Paul Smith também esteve nos Melhores do Ano, de 2023, com o projeto Unthank:Smith. No caso do álbum solo de Duncan Lloyd, o músico me cativou pelos arranjos simples e atmosfera minimalista mas longe de soarem prosaicos.
Duncan Lloyd está entre os Melhores do Ano do Um Outro Lado da Música!