Atualizado em: dezembro 10, 2025 às 10:15 am

Por Guilherme Costa

Com dois discos de inéditas em seu currículo, a L.A. Witch decidiram que era a hora de sair do seu lugar comum. Quando o trio, formado por Sade Sanchez (vocal e guitarra), Irita Pai (baixo) e Ellie English (bateria), liberou o single “777” em fevereiro, foi possível notar que o próximo passo seria baseada numa sonoridade mais crua e com grande influência do Post-Punk.

Talvez por ter sido gravado em vários locais da Europa — pela primeira vez na carreira do trio —, a atmosfera do álbum seja mais crua do que os seus antecessores (cheios de guitarras dissonantes e com reverbs), como o grupo mencionou em comunicado à imprensa: “uma parte da energia do nosso novo álbum é resultado de poder gravar em uma cidade diferente que todos nós amamos, que é tão diferente de casa”.

Saiu, então, no dia 4 de abril, via Suicide Squeeze Records, “DOGGOD”, o terceiro álbum de estúdio da L.A. Witch!

“Existe uma conexão simbólica entre mulheres e cães que expressa a posição subordinada da mulher na sociedade”, explica Sanchez a respeito do título do álbum. “E qualquer coisa que incorpore tais características divinas jamais mereceu ser usada como insulto.”

Como sugerido pelas prévias “777” e “The Lines” e “Icicle”, Sade, Irita e Ellie estavam interessadas em mergulhar na estética opaca do Post-Punk oitentista, deixando de lado o Garage e Surf Rock californiano presentes no autointitulado álbum de estreia e em “Play With Fire”.

“Icicle” abre o disco, sendo introduzida pela guitarra e voz solitária da Sade, até que baixo e bateria entra em ação. Nela, é possível perceber um sintetizador aqui e uns efeitos ali, mas a sua atmosfera é crua, quase vazia, ao passo que Sade a descreve como nossa música mais fria neste álbum, escrita durante um período muito sombrio da minha vida”. “777”, descrita como “uma música sobre a disposição de morrer por amor no processo de servi-lo ou sofrer por ele”, também é outra amostra das influências de grupos como o Joy Division e Siouxsie and the Banshees que são facilmente perceptíveis nos pouco mais de 31 minutos do “DOGGOD”.

Embora seja quase natural citar bandas como influências (cito, também, o Cure) e como elas são emuladas durante um álbum, é importante observar e ressaltar como um artista consegue tomar para si tais elementos. No caso da L.A. Witch, o Post-Punk não serve apenas para mostrar quem foram os seus heróis e heroínas do passado — ele também é incorporado no DNA do trio. E esse é caso de “Kiss Me Deep” — cujo riff inicial tem um quê de “Born To Be Wild” — que, mesmo com a sua estrutura Post-Punk, se conecta com os dois álbuns antecessores, seja pelo timbre da guitarra da Sade ou pela dinâmica e sorrateira linha de bateria da Ellie.

Aliás, Irita e Elie estão em plena forma, desempenhando um papel tão importante quanto a guitarra de Sade. Mesmo que simples, embora protagonistas, a bateria sólida e as taciturnas linhas de baixo encorpam as faixas de tal forma (como na poderosa “The Lines”), que as transformam em trilhas hipnóticas.

Como eu abordei na resenha do álbum, publicada em abril, “DOGGOD” é recheado de tons opacos e abordagem crua na maioria das suas faixas, como em “Eyes of Love” — que habita num espaço entre o Punk e o Post-Punk —, cuja guitarra de Sade é a síntese do “menos é mais” que permeia os estilos. As exceções (que não são as faixas citadas acima) são “Lost at Sea”, que divide o seu andamento entre guitarra-baixo-sintetizador criando paisagens oníricas e psicodélicas; e “SOS”, que finaliza o disco num clima mais New Wave e com os versos “Encontre-me na superfície, SOS/ Estou sentindo sua angústia/ Mayday, Mayday, estou aqui para ficar/ A libertação está a caminho”.

Em “DOGGOD”, as bruxas de Los Angeles mudaram um pouco a roupagem do seu som para seguir falando sobre o seu espírito feminino, que ganhou contornos mais espirituais em seu novo álbum. Para além do teor lírico, Sade, Irita e Elie, também souberam usar e abusar do “menos é mais” que o Post-Punk foi e é capaz de proporcionar, para criar grandes trilhas sonoras!

A L.A. Witch está entre os Melhores do Ano do Um Outro Lado da Música!